Vinguei-me. Fiz-te o mesmo que me fizeste. Não, espera, não fiz. Tu foste pior, tu esqueceste-me de propósito, fizeste por me ignorares naquele que devia ser o mais feliz dia para mim. Não te dignaste - ser superior - a dirigir-me uma palavra sobre o assunto, não foste capaz de esquecer o orgulho e a vaidade e a falsa honra e falar-me. E eu fui parva, estúpida, ingénua, porque te disse o que tu não me disseste. Porque me insultas e eu deixo passar, enquanto a outros agrido. Porque tu me esqueces, porque, para ti, é impossível acreditar que eu possa ser mais do que sou, porque não és capaz de me ver. Ninguém é. Todos acreditam na minha fachada, ninguém percebe as tonturas que tenho por ser assim, por ter de disfarçar todos os meus actos com camadas de alegria. Por suavizar as palavras com coberturas de doce, que escondem o recheio amargo. Porque sinto o meu interior grotesco, como uma obra de arte destruída por vandalismo, sem nada mais restar que algumas palavras/pinceladas/pedaços. Porque não me conheço e me descubro todos os dias, e vou descobrindo que te odeio e que me odeias, que odeio que me odeies porque não te consigo odiar. Porque ainda o tento, porque me revolto contra ti, porque, se há coisa que odeio, é que não me deixes odiar-te. Mereces. Merece-lo acima de qualquer coisa, merece-lo mais que alguém possa imaginar, mas todos sabem que tal é verdade, e eu ainda sofro por isso. Porque te tento redimir mas insulto-te ao mesmo tempo, porque acredito na tua falsa inocência, porque te tento denegrir e elogiar aos olhos dos outros. Porque me confundes, porque nada faz sentido desde que me fizeste acreditar nas tuas palavras, porque és criatura vã e intriguista e insuportável, mas necessária. Porque me fazes desconfiar de ti, de cada um dos teus sorrisos e brincadeiras, porque há quem mereça mais a minha atenção que tu. Porque, com ele, eu consigo brincar, e os seus silêncios e perguntas e apostas não me constrangem como tu fazes, mas eu continuo a dar-te importância. Porque não me deixas ser egocêntrica mas tornas-me narcisista, porque fazes com que a minha alegria não faça sentido. Eu quero, preciso que ela faça sentido. Ela tem de fazer sentido. Além de me proteger - de ti -, ela é quem eu sou, e eu sou feliz. Menos contigo. Menos por ti.
Tu destróis a minha felicidade.