Foi percorrido por um estremecimento. Estava sozinho. Sozinho como nunca antes havia estado. A arrogância de que nunca se convencera, usada como arma afiada e ingénua, contribuíra para essa solidão. Não fora ele que se distanciara; todos os outros é que se foram afastando, um a um, até restar um espaço vazio. Mas um espaço vazio de nada lhe servia, não quando sentia ele mesmo um espaço vazio no peito, que nem para o ar deixava lugar. E esse vácuo crescia e sufocava-o e cegava-o e ensurdecia-o. Lutava para respirar, estendia as mãos para o nada e esperava que alguém as agarrasse, enquanto soltava gritos roucos que imploravam por ajuda. Mas estava sozinho.
E o orgulho impedia as lágrimas de escorrerem, qual barragem que obstruía o curso da água. Os gritos de ajuda eram agora ordens proferidas em voz tremida como uma vela soprada pelo vento, sem qualquer pretensão ao que não era, finalmente. Mas, teimoso, insistia em manter a compostura, em afastar da expressão algo que pudesse denunciar a sua dor. Um poço de contradições e paradoxos. Isolado. Sozinho.
E as ordens reduziram-se a lamúrias, queixumes ao nada, continuando a tentar agarrar uma âncora, apertando apenas vazio. Como se sentia injustiçado! Certamente não merecia tal punição, nada fizera que justificasse o seu sofrimento. Na verdade, raciocinou, era incompreendido. Sim, talvez fosse isso. Mas… - e a pressão sufocante diminuiu ligeiramente - e se fosse verdade o que lhe haviam dito, palavras em que não acreditava por serem desajustadas à sua pessoa? E se fosse por isso que estava sozinho?
Conseguiu, finalmente, abrir os olhos. De nada lhe serviu, ainda estava imerso em trevas. Porém, havia algo diferente. Luz. Uma réstia de humildade, de modéstia, espreitando como se por entre uma nesga de uma porta entreaberta. Estendeu de novo a mão, lentamente, a medo. Outra agarrou a sua. Já não estava sozinho.