Friday, August 17, 2007

Foi percorrido por um estremecimento. Estava sozinho. Sozinho como nunca antes havia estado. A arrogância de que nunca se convencera, usada como arma afiada e ingénua, contribuíra para essa solidão. Não fora ele que se distanciara; todos os outros é que se foram afastando, um a um, até restar um espaço vazio. Mas um espaço vazio de nada lhe servia, não quando sentia ele mesmo um espaço vazio no peito, que nem para o ar deixava lugar. E esse vácuo crescia e sufocava-o e cegava-o e ensurdecia-o. Lutava para respirar, estendia as mãos para o nada e esperava que alguém as agarrasse, enquanto soltava gritos roucos que imploravam por ajuda. Mas estava sozinho.

E o orgulho impedia as lágrimas de escorrerem, qual barragem que obstruía o curso da água. Os gritos de ajuda eram agora ordens proferidas em voz tremida como uma vela soprada pelo vento, sem qualquer pretensão ao que não era, finalmente. Mas, teimoso, insistia em manter a compostura, em afastar da expressão algo que pudesse denunciar a sua dor. Um poço de contradições e paradoxos. Isolado. Sozinho.

E as ordens reduziram-se a lamúrias, queixumes ao nada, continuando a tentar agarrar uma âncora, apertando apenas vazio. Como se sentia injustiçado! Certamente não merecia tal punição, nada fizera que justificasse o seu sofrimento. Na verdade, raciocinou, era incompreendido. Sim, talvez fosse isso. Mas… - e a pressão sufocante diminuiu ligeiramente - e se fosse verdade o que lhe haviam dito, palavras em que não acreditava por serem desajustadas à sua pessoa? E se fosse por isso que estava sozinho?

Conseguiu, finalmente, abrir os olhos. De nada lhe serviu, ainda estava imerso em trevas. Porém, havia algo diferente. Luz. Uma réstia de humildade, de modéstia, espreitando como se por entre uma nesga de uma porta entreaberta. Estendeu de novo a mão, lentamente, a medo. Outra agarrou a sua. Já não estava sozinho.

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Tuesday, August 14, 2007

Onde foi o egocentrismo, agora que preciso tanto dele? Não me importar, não querer saber, afastar-me e, principalmente, não me deixar afectar. Não mereço, acho que não mereço. Não fiz perguntas, não insultei, mas o meu humor tornou-se turbulento como uma tempestade. As palavras ferem. Já tentei escudar-me, a sério que sim, sussurrando narcisismos, rogando pragas e maldições, apregoando a mim mesma o meu ódio. Mas sou cobarde, porque não acredito. Em mim. E deixo-me afectar cada vez, sem excepção. Tento esconder essa irritação de quem não merece recebê-la, de quem não merece ter de se preocupar, mas é difícil. Oh, como é difícil! E nada mais mostro que raiva gélida e frio sarcasmo às causas da minha dor. Mas talvez nem mesmo essas causas a mereçam, talvez seja eu que mereça o que oiço. Lamento, sendo assim. Dava tudo para o ignorar, para o esquecer, mas o meu orgulho - maldito orgulho! - não mo permite. E fico sozinha.
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Thursday, August 9, 2007

Anjo.

Como se fosse possível, como se fosse fácil. Mas o que será ele? A fachada, a tinta exterior, apagada assim que cai a cruel e fria e realmente reveladora chuva. E revela essa mentira em que, na verdade, ninguém acredita, de tão insensata. Ou talvez seja ingénua. É preferível pensar assim, decerto. Porque não seria tão dolorosa.

Os anjos não existem. Porque escolhes acreditar que sim? Talvez a existência de tais seres te dê uma sensação de segurança. Mas tu próprio já disseste que não acreditavas. Como pretendes que eu acredite?

Um anjo original. Onde está a originalidade na mentira, na alegria inventada, no tremeluzir de uma chama prestes a apagar-se? Talvez sejas tu o original, o especial. Sim, deve ser isso. Diferente mas, oh, tão igual aos outros. E eu assusto-me e recuo, ainda desabituada ao calor e à luz. E às asas. As minhas asas que só tu vês. Perco-me entre acreditar ou não.  Porque nunca consegui voar com elas, e afundo-me, elas arrastam-me para baixo, para o fundo do poço. Que eu escavei. Sepultura do ego, repouso da alma.

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Castanhas, transformadas em simples e súbitos impulsos de espezinhar, tentativas falhadas de acertar no espinhoso alvo.

 Patos, centro de canções, de regressos partilhados à infância, de vozes descoordenadas.

 Mapas, guiando o caminho de caminhantes perdidos por descidas e fontes até guardiãs mal-humoradas de antros proibidos à maturidade.

Água, rochas, escadas de pedra, armadilhas escorregadias em grutas-encruzilhadas, ladeadas pela verdura recém-húmida de braços estendidos, feitas labirínticas, berço de gritos, risos e línguas.

Doce veneno, como estrelas e losangos afiados, contraposto ao (quase) ignorado e fofo antídoto.

Horários trocados, carruagens cheias, vento, esse suave e apaziguador (ou irritante), despedidas apressadas.

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