Ainda estás mais sozinha mas, estranhamente, mais alegre.
És tu novamente, isso concedo-te.
Já não nos falamos há uns tempos. Deixei de falar em voz baixa quando percebi o quão bela ela é, se é que me entendes. Todas as vozes são belas quando há quem as goste de escutar. Até os murmúrios são proferidos em voz alta, como canções entoadas em coros de crianças angelicais. Voz alta mas suave. Lembras-te quando eu cantava baixinho, eu e tu, as duas, e não havia quem nos importunasse? Como te poderias esquecer, eram os momentos de felicidade que me faziam transbordar para ti.
Novembro já vai no fim, se reparares. Não me lembro do Novembro passado, estaríamos assim tão afastadas? Ou ter-me-ei remetido ao silêncio como agora, deixando-te de parte? Sei que desprezas as vozes inoportunas que se espalham pelo ar e destabilizam a sintonia criada por ti, mas eu não sou como tu, como muito bem sabes, e gosto de ouvir os risos estridentes e os gritos eufóricos (mas não histéricos). Sei também que não te afeiçoas ao Silêncio, onde fazem falta as vozes pianinhas. Mas tem sido um amigo, companheiro - silencioso - que preenche as horas onde nem tu estás presente.
Terei sido eu a abandonar-te, ou já não queres nada comigo?
Achei que deveria escrever-te, porque ainda me fazem falta os momentos em que as duas, sós no meio do mundo, cantamos baixinho ou murmuramos palavras compreensíveis apenas para nós.
A tua falta é como um buraco de largura imensa.
é a tua sombra que procuras
sempre - quase todas as vezes
sob o sol do meio-dia
e o bater do relógio impede o piscar tremeluzente
das luzes da semi-ribalta
quando estendes as mãos
toujours petites
sem a concentração merecida
roubada aos voos das águias
- suave(mente!) depenadas.
insistes nas recusas meio inusitadas
e nos pedidos de demora
exactamente quando te apressas
e esqueces a celeridade da arrogância.
surpreendes-me
com essa tua capacidade habilmente estratega
de planear as horas e os dias como teus
e de dizer mais na tua distância que as palavras que poderias ter dito.
que não disseste.
quebram-se os compromissos
e desfazem-se as promessas
em que é quase visível o esquecimento.
olvidas-me, lentamente,
por entre as juras de que não o farás
nunca.
tarde de mais,
a minha imagem já se esbate e não sou mais o que era
apaga-se-te da memória a tranquilidade do enlaçar
e as saudades desapertam.
mas não para mim.
perfeito
como as mensagens codificadas em alegria
e as coincidências que quebram a monotonia
dos dias que demoram a passar.
como sono que se desvanece
quando o tempo parece não chegar.
questões retóricas da felicidade
quando nada há para questionar
porque a felicidade é.
perfeita.
como tu.
como a comunicação sem palavras que preenche as horas
sem qualquer teoria que não tu, que não eu.
nós.
porque, comparados com o delimitar da vida,
que somos se não o mais importante de tudo
- egocêntricos - ?
e é este egocentrismo que me cega e me torna des-ingénua
e salvas-me, mesmo não me resgatando
apenas sentindo o gelo das tuas mãos derreter nas minhas
como se escorre o tempo que temos.
agradecendo aos que percebem e aos que são ditos
aos que não se esquecem e aos que se lembram
aos teimosos, aos insistentes, aos que nos deixam.
e aproveitamos os segundos,
os deslizantes segundos,
momentos parcos de perfeição.
tão curtos.
perfeitos.
como tu.
Obrigada aos que estiveram, aos que se lembraram e aos que nunca se esqueceram, mesmo nos últimos segundos.