Wednesday, January 23, 2008

Ex- que foste

ex- que foste,
e agora és passado.
memória imberbe e pueril
ensombrecida pelo nevoeiro
arrogante diluir do antigo ser
ante as inconsistentes ameaças
que proferes com intenções devastadoras.
ameaças. foram breves, encanecidas
pelo tempo incoerente que te atribuis
nos teus resquícios de infantilidade.
é em redemoinhos de óleo negro que
atiças o fogo e queimas
ardendo o céu no amanhecer precoce
com a plenitude da aurora moribunda.

and darkness turns to rain.

agarrar-te é segurar o resplandescer dourado
do sol poente
e já foste.
no decorrer do tempo pelo espaço
- isso a que chamam dia, -
caíste, contra-vontade
estatelando-te no que não quiseste
jamais querer.
a tua falta de ambição foi o teu fim.
ou nunca nada quiseste, dado seres
deus em tua terra estéril
partindo para conquistas de territórios
atravessando o Rio
para lá do retornável.

and now you’re long gone.

porque nunca estiveste
e o teu corpo nunca foi matéria
não foi a tua mão que delimitou os contornos
que criaram espirais de luz
transcendentes.
teus olhos não se fecharam com a imensidão
do percorrer mal-amado dos caminhos
cujo pó forma visões de euforia.

now dawn comes no more.

como persegues agora a vida
sem o apoiar dos sonhos de gravilha
resvalados
pelo correr da noite e a raiva
que, afinal, não passa de palavras
tão vãs como o bem que desejaste.
aconteceu seres, em tempos,
quem foste,
- e quem sabe se não o serás ainda –
mas foste remetido à indiferença,
à letargia de tudo.
tornaste-te plano de fundo
que nunca quiseste ser
mas seria inevitável
como o azul das veias
através da pele não-pálida
sequer.

until there’s no heaven.

Posted by Catarina. at 16:51:25 | Permalink | No Comments »

Wednesday, January 16, 2008

Bla bla, só, bla bla, sozinha, bla bla, solidão.

Who cares?

Posted by Catarina. at 23:08:36 | Permalink | Comments (1) »

Monday, January 7, 2008

Auto-Retrato Desafinado

Era fácil perceber que não estava concentrada. Via como caminhava devagar, olhando vagamente para o chão do passeio e para o céu nublado, esperando – quem sabe o que esperava? Aparentava ser mais pequena do que era, a cabeça várias vezes enterrada no cachecol, como se procurasse ocultar-se e desaparecer. Tornar-se invisível, decerto, era o seu maior desejo. Dos cabelos pouco se via, a maior parte cobertos pelo gorro que nada tinha a ver com o resto da sua indumentária. Puxava-o constantemente, como se temesse que ele fosse cair ou voar com o vento forte. As mãos – quão deliciosamente pequenas! – quando não se encontravam a ajeitar o gorro, escondiam-se no calor reconfortante dos bolsos do casaco preto comprido, demasiado largo para si. Uma pequena mochila pesava-lhe as costas, aparentemente mais carregada do que seria suposto.

 

Um pé acertou com um splash! numa pequena poça de água, resquícios de uma chuva que parecia querer voltar. A bainha das calças já estava completamente encharcada – talvez estivesse a fazer pontaria aos mini-lagos no seu caminho. Os seus lábios entreabriam-se; a melodia (se se poderia chamar melodia a tal desafino) contrastava com o silêncio que os outros transeuntes pareciam ter imposto a si próprios.

 

            Um redemoinho de folhas cercou-a, em tons amarelos de Outono decadente. Com um gesto exasperado, repentino, arrancou o gorro da cabeça, guardando-o na já atafulhada mochila. Os cabelos despenteados, de meios caracóis escuros (castanhos!) ondulam, demasiado pesados para se agitarem com o vento. Parada no semáforo, olhou para as árvores com um sorriso. Mas adivinhar-lhe a mente era – tarefa vã – impossível. Ajustou os óculos na ponta do nariz, desatentamente, e o sorriso desmanchou-se, devagar.

 

            Atravessou a passadeira num passo rápido, apressado, reflectindo na sua caminhada os sentimentos efervescentes que a agitavam interiormente.

 

            E, sendo quem era, foi nada mais que a voz desajustada do silêncio corrupto citadino, desafinada.

Posted by Catarina. at 22:57:56 | Permalink | No Comments »

Thursday, January 3, 2008

Compreendo-te, agora.

Ou talvez não. Porque eu não quero isolar-me. Ou, pelo menos, não o faço de propósito. A solidão não me foi imposta por mim - penso eu. Porque sei que estou só, e que não quero sentir-me assim, mas não é como antes. Não. Agora nem sou assaltada pela cruel vontade de chorar; rendi-me antes a uma letargia minuciosa que é anestesia - adormece. Conformei-me, julgo, ao isolar do resto. Ainda rio, claro, e canto. Aliás, cantar é a certeza de que ainda sou eu, de que não me deixei submeter completamente a esta dormência. Mas os risos e sorrisos, conquanto verdadeiros - e notórios - não passam de breves e egoístas recordações de mim.

Ao menos, sou capaz de sorrir. Mas estar sozinha torna-se insistente, e o pior é saber que o estou cada vez mais e nada faço para o mudar. Porque não importa. Não agora. A indiferença é dolorosa, mas impede-me de chorar. Ou de ficar triste. Mas esconde - ou destrói - cada vez mais o desejo de resistir ao egocentrismo e ao egoísmo. E não posso gritar de ajuda, não mo permito. Porque não tenho a certeza de que precise de ajuda. A solidão não é assim tão má, afinal de contas. Já não é um aperto no peito, já não se trar da mesma angústia sufocante.

O gelo é belo.

Posted by Catarina. at 21:09:50 | Permalink | No Comments »