Olha o Rio, Meu Amor.

Como lhe parecia irrelevante aquele piscar intermitente do farol, a pouca certeza com que guiava os navios com a sua artificialidade extrema. Não serviriam as estrelas? – interrogava-se, na sua lânguida observação da noite, olhando a escuridão exterior que lhe invadia o quarto, mas que era timidamente afastada por uma pequena vela.
Sim, as estrelas deveriam bastar. Eram tão brilhantes, julgava ela, fitando, um a um, os diferentes pontos que lembravam milhares de lanternas acesas numa oração comum, ao mesmo generoso deus. Com um sorriso, imaginou-se numa delas. Viver numa estrela – que estupidez! Como se fosse possível habitar um pontinho minúsculo.
Um suave e repentino bater na janela alertou-a para mais que as estrelas. Indignada por ter sido interrompida na sua contemplação pacata do fixamento, fitou a pequena sombra uns metros abaixo. Abrindo a janela, silvando-lhe furiosamente em resposta:
- Vai-te embora! Já sabes que não posso sair.
O vulto não obedeceu à ordem, teimosamente continuando no mesmo local, tendo até a ousadia de a apelar, numa voz masculina murmurada. – Anda lá! Não demoramos muito, nem sequer vamos muito longe.
Com um suspiro de exasperação forjado audivelmente para que o clamante soubesse que o fazia contrariada, apressou-se a vestir um par de calças e uma camisola quente antes de descer atabalhoadamente pela árvore perto da janela. Como odiava fazer aquilo!, não tinha qualquer jeito para trepar, sentia-se sempre desgraciosa.
- Pronto, já cá estou. Onde queres ir? - Apesar das palavras carregadas com um ligeiro peso de desdém, era-lhe difícil esconder a excitação.
Uma mão foi-lhe estendida na escuridão, e ela apressou-se a tomá-la. Estava gelada, como se tivesse tocado num bloco de gelo, mas ela apertou-a com força, tentando, com a sua, aquecê-la. E sorriu por dentro.
- Vais dizer-me onde vamos? – inquiriu de novo, pouco contente com o facto de não lhe ter sido dada qualquer resposta.
- Já vês.
E a única outra resposta era o silêncio; nada mais, enquanto ela insistia e calcavam os trilhos inumanos e vivamente despertos, com o cri-cri dos grilos qual melodia indignada.
- Olha o rio, meu amor, - disse ele, e ela nada mais pôde fazer que obedecer, como sempre fazia. Porque a voz era demasiado doce para ser contestada e as suas palavras embeveciam-na de admiração merecida, de cada vez que ele as pronunciava.
Meu amor, e era como se fosse esse o seu nome. E ela não queria outro.
O rio era como sempre era, uma corrente de negra escuridão que se arrastava placidamente ao longo da costa, espelho baço que reflectia as estrelas, até então objecto de contemplação, relegadas agora para um segundo plano, tornadas irrelevantes.
Mas o rio era belo, ainda assim. Porque não o fitava sozinha. Um braço estendeu-se, e deixou de ser apenas uma mão a uni-los. Ela já não mais insistia em saber o que lhe queria ele mostrar, nem por que lhe dissera para olhar o rio, esse que deslizava como manto de negritude, qual insuspeita maldição estremunhada; aninhada no abraço protector de doçura que a rodeava como fortaleza. Como maravilhoso muro.

[Já é antigo, como se pode perceber pela última frase, mas enfim.]

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