Não estou aqui.
Que se danem as promessas a quem não as merece, que se danem os dias de calor que abafam e sufocam e me tornam inquieta, que se dane a solidão que agora nem eu quero saber dela, que se danem as frases bem construídas e as ortografias e os erros e a felicidade, que se danem os filmes idiotas e os aborrecidos e os que não fazem sentido, que se danem as ovelhas de peluche, que me fazem companhia mas não são gente, que se danem os estudos em folhas verdes, que eram as únicas que havia, que se dane a vontade de dizer haviam quando não se deve, que se dane as cascas de banana no chão ou os iogurtes já só com colher, que se danem as folhas que precisam de argolas, que se danem os dossiers mal organizados onde nunca encontro nada à primeira, que se danem as mensagens e os separadores e as malas cheias, e os sacos com tachos e frigideiras, que se danem as casas que não são lares, que se danem as músicas tristes e as alegres e as idiotas e os palavrões que nunca digo mas que mereço dizer (merde!), que se danem os cobertores de falsos gatos, e os gatos verdadeiros, e os tapetes e os chinelos e as letras e os fonemas e as folhas soltas de pseudo-histórias, e a palavra pseudo, que se danem os parágrafos e os pontos finais, que se danem as almofadas e os puffs e as mochilas pequenas num sem-fim de repetições, que se danem as garrafas de água já bebidas e os estojos atafulhados e os prédios e os telhados opressores e as janelas-olhos de vizinhas, e as despedidas, que se danem os sonhos e os testes e as aulas e a memória, que se danem os sorrisos, os risos, as lágrimas, os soluços, que se danem os cabelos castanhos e os pretos e as pulseiras que não saem e os elásticos e os relógios, que se danem as horas e os minutos e os segundos e os dedos pequenos, que se danem as veias e o sangue e o azul e o vermelho e as cores e o daltonismo, que se dane o sono e a vontade de dormir e as almofadas suaves e as mantas quentes, que se danem os jogos e os entretiens e os dias e as noites, que se dane o francês e o inglês e o português e que se danem as maldições e as preces e as pragas e os augúrios e os auspícios e o latim, que se danem as vírgulas e os polissíndetos, que me dane, que se dane a teimosia e a indiferença e os dias de chuva, que se danem os guiões e as fotocópias e o metro e o autocarro, que se dane o Tejo e o Sado e a margem sul e a norte, que se danem os cadernos e os poemas e as canetas e as prosas, que se dane o mundo e que não me chateiem.