Percebe-me, é tudo o que peço.
Percebe a minha necessidade de saber a verdade, compreende o quanto eu preciso de julgar e criticar os outros, egoísta e egocentricamente. O que eu mais quero, agora, é que me percebas. Que, por teu lado, não me critiques nem me julgues, que não faças o que eu quero fazer, que me fales de coisas banais e do quotidiano, que me façam sorrir. Compreende que eu preciso de te conhecer superficialmente, que não quero mergulhar, que tenho medo de me afogar em ti. Entende que não sou capaz de ser tudo, que tenho limites, que nem sempre sou eu. Compreende os meus defeitos, percebe que percebo os teus, que os conheço sem que tu os conheças, que lhes dou atenção e que os questiono, sem que tu desconfies sequer da sua existência. Entende a minha necessidade de me retrair, de me esconder, de me abrigar dentro de uma concha, porque ainda não me entendes. Compreende que nem sempre sou como desejas, que te surpreendo, que, desconhecendo quem eu sou, me conheces, que sou egocêntrica e humilde, que preciso de ajuda para me levantar, mas o orgulho impede-me de o admitir. Percebe que sou assim, que tento mudar, percebe essas tentativas de mudança e acompanha-as, sem nunca me apoiares, sem me tirares o tapete de debaixo dos pés. Entende que não preciso de olhar para ti desde que oiça a tua voz, desde que saiba que estás lá. Compreende que, se não olho, não é por não gostar de ti, mas sim porque tenho medo de que, ao olhar, desapareças. Percebe que nem sempre te posso perceber, que, muitas vezes, sou eu quem falha, mas que é demasiado orgulhoso para admitir. Entende que as minhas lágrimas são minhas e só minhas, que a ti só pertence o meu riso e a minha alegria. Compreende as minhas vãs tentativas de ser mais que o que sou, de me ultrapassar a mim e a ti, para te poder olhar do alto, sem que me possas criticar. Percebe que receio e anseio pelas tuas críticas, que as quero ouvir e tapo os ouvidos, que não as sei escutar, que me atingem no âmago, que me desfazem e constroem. Entende que nada mais há em ti que eu ame, sem ser eu. Compreende a minha permanente necessidade de atenção, de estar feliz, que me faças feliz. Percebe que nem sempre estou alegre, que é apenas uma fachada, que nada mais é que puro narcisismo, que um muro alto para me proteger, para me proteger de ti. Entende, por favor, entende que, quando estou melancólica, é por tua culpa, porque és tu que me fazes pensar, tu e tu, mas um tu diferente. Compreende se me voltar para outra pessoa, porque me sinto sozinha, ou se me voltar para mim mesma por me sentir abandonada. Percebe que te invejo e te adoro, que me assustas e me fascinas, que nem sempre sou como seria se não estivesse contigo. Entende o meu sonho de ser feliz, deixa-me entender o teu, que é impossível para mim, mas ajudar-te-ei a alcançá-lo, porque o meu do teu depende. Compreende que posso ser arrogante, mas é sem pensar, e que nem sempre o lamento. Percebe que tu nada mais és que alguém, que não me és superior, que sou eu que te faço assim. Entende que sei mais do que pensas, que não sou tão ingénua assim - oh, mas isso já o sabes. Compreende a minha incapacidade para aceitar algumas atitudes minhas, quando aceito todas as tuas. Percebe que posso deambular, que posso fingir, que posso ser cínica, mas é apenas para minha protecção, para me manter forte e segura, para evitar vacilar ao olhar para ti, minha perdição. Entende os meus sorrisos falsos e a minha desmesurada alegria, entende que te trato mal por querer evitar tratar-te bem, que as sete pedras são todas lançadas a mim mesma, e não a ti. Compreende que é a mim que me critico, que me sacrifico, de cada vez que te respondo mal, que sou - para todos os efeitos - cruel.
May
15
2007