Como pudeste?
Com a tua fraqueza destruíste o meu belo palácio, transformando-o em cinzentas ruínas, despojadas do antigo e vigoroso esplendor. Secaste todas as fontes e rios e mares deste meu reino, queimaste os verdejantes campos e incendiaste todos os bosques cor-de-esmeralda. A Natureza pereceu. Por tua culpa.
Tornaste gélido o Verão e tórrido o Inverno, condenaste a felicidade e baniste a alegria. Os risos e sorrisos tornaram-se proscritos. Por tua culpa.
Agora, só as lágrimas governam, a soberanas e solenes em seus tronos de dor e carência, alimentando-se de redemoinhos de desespero. Por tua culpa.
Transformaste a comida em cinzas e a bebida em fel. O doce perfume que era ar tornou-se acre, sufocante. Por tua culpa.
Fizeste com que surgissem mendigos neste meu reino de ouro; estalaram guerras e a fome chegou, com o seu sorriso de escárnio e olhos cavados. Por tua culpa.
Sangue. Esse, que nunca havia corrido em maior quantidade que uma gota, proveniente do tocar num espinho de uma rosa, corria agora em rios vermelho-rubi; belos, é certo, mas de uma forma macabra. Por tua culpa.
Troçaste da beleza da chuva, do resvalar da noite para o dia, do chilrear melodioso dos pássaros e do assobiar suave do vento. Tudo se silenciou. Por tua culpa.
Amaldiçoaste, sim, amaldiçoaste cada pedaço de terra, de vida deste meu reino encantado, e nada deixaste que ficasse de pé. As flores murcharam, e tudo ficou coberto de morte. Por tua culpa.
Anunciaste a minha derrota aos quatro ventos mesmo antes de saber se eu me rendia - e ainda não o fiz. Obrigaste a que se ajoelhassem todos os meus súbditos a teus pés. A canção entoada era de medo. Por tua culpa.
Cobraste dívidas que não te eram devidas, trucidaste a generosidade e a solidariedade. O orgulho morreu sozinho, enforcado pela corda que lhe ataste ao pescoço. Por tua culpa.
As tuas pragas foram ouvidas em cada canto e recanto deste meu reino, e todos te obedeceram. O fogo, até então fonte de calor e de purificação, transformou as suas labaredas em armas que feriam e matavam. Por tua culpa.
Tu, inimigo mortal, cobriste de trevas a luz, com teus mantos negros e gargalhadas frias. A escuridão permanente coroou tudo; a claridade feneceu para sempre. Por tua culpa.
Destruíste este meu reino. Mas, apesar disso, ele é o mais belo de todos.